16 de fev de 2017

JESUS E A DOUTRINA PÓS-MODERNA

Autor: Luiz Dias do Nascimento Filho
Trabalho apresentado na Jornada Teológica do STM/02/2017

             RESUMO
A proposta deste trabalho sobre Jesus e a doutrina pós-moderna tem a preocupação de investigar, de modo bem sintético, as formas como Jesus foi pensado na filosofia da igreja primitiva, na idade média, moderna e como Ele é pensado hoje na filosofia pós-moderna. Ao levar em consideração estes aspectos, surge o interesse de uma pesquisa focada na possibilidade da existência de um Jesus que ultrapassa a realidade de uma doutrina única, que dá lugar a um Jesus plural, um Jesus das diversidades religiosas e culturais segundo a necessidade de cada tempo. Este caminho parece oferecer condições de conhecer concepções de crenças fundadas em valores tradicionais de verdade e a ruptura com essa verdade. Sendo assim, propõe-se neste trabalho trazer para o debate a questão da concepção teológica de um Jesus único, absoluto e de um Jesus pós-moderno onde estará em discussão a questão da unicidade e da diversidade doutrinal de Jesus. Para isto, tomamos como base o texto de Gianni Vattimo e outras leituras auxiliarem, buscando entender os pressupostos do pensamento forte (tradicional) e do pensamento fraco (pós-moderno). O interesse por esta discussão se dá pelo fato de que a igreja primitiva valorizava a doutrina única de Jesus, enquanto a pós-modernidade reivindica a relativização dessa doutrina em função da pluralidade cultural.

Palavras-chaves
Pensamento forte, pensamento fraco, doutrina, Jesus, moderno, pós-moderno,


Introdução
O interesse por esta pesquisa se deu pelo fato de querer entender como Jesus foi primeiramente pensado na igreja primitiva e como ele é pensado hoje a partir de tantas mudanças, não só no campo religioso, mas na evolução da ciência, da tecnologia, da comunicação, das grandes narrativas iluministas, no campo da história, da teologia e outras vertentes que se aplicaram a pensar sobre Jesus. A outra questão que nos leva a valorizar esta pesquisa é a possibilidade de se saber como Jesus está sendo pensado diante da realidade objetiva da produção material que busca a satisfação dos desejos dos indivíduos, produzindo experiências de natureza objetiva, ou seja, experiência de aquisição e satisfação de coisas. Um fenômeno produzido por imagens objetivas, ou seja, imagens que se colocam diante do homem, dando a ele representações divinas, representações que se realizam entre o concreto e o abstrato, uma zona intermediária que concilia matemática e experiência, leis, fatos e espiritualidade, reivindicando uma nova concepção de fé e de utilização da fé em Jesus.

JESUS E A QUESTÃO DA DOUTRINA
         Iniciarei meu texto com a declaração de que a nossa sociedade moderna se envolveu numa dimensão de crise sem precedente. Estamos mergulhados dentro de múltiplas crises: crise de valores, da ética, da verdade, da justiça, da religião e do homem como indivíduo. Momento que é anunciado a chegada de uma pós-modernidade, uma pós-modernidade que aboli os fundamentos, prevalecendo-se da debilidade moderna fundada em narrativas produzidas por grandes filósofos, teólogos, sociólogos e psicanalistas que teceram a rede do iluminismo (racionalismo).

Para melhor compreensão desses acontecimentos e sua influência na doutrina Cristã, procurarei pontuar algumas mudanças que ocorreram na forma de pensar sobre a pessoa principal da fé cristã, Jesus.

No início do cristianismo, século I, Jesus é o homem com finalidades libertárias, o Jesus que resgata o homem do engano de um mundo constituído de valores oriundos de uma raça corrompida.  O Messias salvador que transforma o homem e o coloca na verdade de uma vida eterna com Ele. Porém, do século V ao século XV houve uma mudança no pensar sobre Jesus, período que envolve o começo e o fim da idade média. Neste tempo a pessoa de Jesus passou a ser conhecida como o Jesus feudo, Jesus latifúndio, um Jesus que agia diretamente na política, na cultura e na economia das nações por meio da Igreja que tinha como prioridade o domínio dos povos e a pregação de um Jesus elitizado, das indulgências, sem misericórdia, sem promessa de vida eterna com Deus.
Já no final do século XV até começo do século XVII, deu-se início o movimento intermediário entre a idade média e o iluminismo, período chamado de Renascimento que busca resgatar a filosofia antiga na intenção de pensar o mundo, a religião e o homem numa nova perspectiva. Este movimento proporcionou, primeiramente, o aparecimento da reforma protestante no início do século XVI com Martinho Lutero, através da publicação de suas 95 teses, em 31 de outubro de 1517, que abriu portas, no século XVIII, na Europa, para o início do intelectualismo Iluminista, um movimento que defendia o uso da razão (luz) contra o antigo regime (trevas). Rompia-se, então, definitivamente, o sistema religioso medieval, obrigando a teologia a sistematizar o seu conhecimento sobre Deus, Jesus, passando a se pensar um Jesus ligado à razão, o que contribuiu para o aparecimento dos grandes clássicos teológicos desse período.
No início do século XX, ao apresentar sinais de insuficiência, o pensamento estrutural iluminista começa a dar oportunidade para uma nova forma de pensar. Um pensamento que vai se efetivar negando o racionalismo moderno que toma o nome de filosofia pós-moderna. Nele, Jesus passa ser pensado como um Jesus de natureza linguística, individual, plural. Ou seja, um Jesus criado à imagem e semelhança das necessidades regionais e individuais. 
Está incutido na visão pós-moderna, de modo parcial, uma das vertentes reformista que delegava aos indivíduos a liberdade de interpretação e reflexão das escrituras.  Sendo assim, na esteira da filosofa reformista e modernista, surge o discurso da pós-modernidade, que se solidifica a partir de uma sociedade que se declara pós-industrial, o que leva a um novo modo de pensar o homem, Deus, religião, sociedade e no rápido crescimento do setor de serviços, em oposição ao manufaturado da tradição industrial e o aceleramento do desenvolvimento da tecnologia da informação, estabelecendo a era da informação. Nesta via, conhecimento e criatividade tornam-se matérias cruciais para o sistema econômico e vital dos indivíduos.
A cultura pós-industrial ou pós-moderna cria e vai priorizar valores que determinam uma nova produção cultural. Um discurso que tem como prerrogativa a não valorização da ideia de totalidade, do ser e, sim, da multiplicidade, da fragmentação, da ausência de referência, a valorização do relativo e da desordem. Para o pensamento pós-moderno, a verdade são os estilos de vida e estéticas que atendem a solicitação de mercado. A comunicação e a indústria ganham papéis importantes na difusão dos valores e, não, as instituições religiosas e públicas que priorizam narrativas normativas com teor ético.
No discurso pós-moderno não existe doutrina única que dê sentido único a todos os homens. Mas, deve-se aprender a conviver com o caos, a desorientação, a relativização e a instantaneidade das coisas. Nesta perspectiva, Jesus não pode ser entendido apenas como salvador de almas, mas um Jesus múltiplo que dá sentido a criação de propósitos e valores de mercado, um Jesus de consumo.
Na cultura pós-moderna Jesus se aproxima da configuração de um homem jogado a um projeto de consumo, um Jesus múltiplo que cabe em qualquer configuração cultural. Neste pensamento, Jesus é inserido em qualquer grupo de linguagem. As aberturas linguísticas permitem a produção de uma consciência de multiplicidade de caminhos e universos culturais determinantes. Para os filósofos pós-modernos, não é mais possível pensar um sistema que chancele a pessoa de Jesus como um Deus dotado de uma só doutrina, doutrina essa marcada pela desconfiança.
Na filosofia pós-moderna não há um ponto de vista privilegiado de onde seja possível fazer julgamento do certo e do errado, pois a vida não se restringe mais apenas a um pensamento lógico, racional, universal. Na pós-modernidade o comportamento é pautado, em sua grande parte, não por regras conscientes, mas por uma força que nos move, estimula, e que é chamada, segundo Nietzsche, vontade de potência.
Na visão pós-moderna a doutrina de Jesus deve estar em consonância com a realização de mercado, voltada para as necessidades individuais e culturais. Nesta via, o homem renasce com seus objetivos de bens de consumo, de direito e de bem-estar corporal. O movimento pós-moderno projeta em seu bojo um novo pensar teológico, um novo pensar relativo, que é a valorização do pensar de cada indivíduo comprometido com as exigências de mercado em concordância com as necessidades de consumo, baseadas na linguística que interpreta e anuncia satisfações momentâneas. Nesta vertente, Jesus deixa de ser o Cristo da alma para ser o Cristo de mercado.
No pensamento pós-moderno a realidade passa a ser a doutrina dos bens terrenos. Jesus na visão pós-moderna se materializa nas condições de consumo e lucro, ou seja, um Cristo determinado para as realizações de riquezas e bens materiais. A pós-modernidade indica a falência de um Cristo universal, o salvador de almas e abre espaço para o salvador de bens e do bem-estar corporal. O Cristo se torna um Cristo poroso que cabe em qualquer cultura, crença ou religião, a partir dele se deve pensar na multiplicidade de verdades que se ajeitam com as leis de mercado e as culturas.
O pensador italiano Gianni Vattimo, filósofo do meado do século XX, acredita que a transição da modernidade para a pós-modernidade configura a mudança de um "pensamento forte, para um " pensamento fraco ". No pensamento forte (ou metafísico) Vattimo entende a filosofia que se funda na verdade, na unidade e na totalidade, (um tipo de pensamento que proporciona "regras" absolutas para o conhecer e o agir). Quanto ao pensamento fraco (ou pós-metafísica), Vattimo alega que ele significa a recusa dessas categorias fortes e da legitimidade global, um tipo de razão normativa.
Para Vattimo, o pensamento fraco é explicitamente revelado como uma forma de niilismo que nos leva a liberdade, ele impede que sejamos aprisionados pelas verdades absolutas da nossa espiritualidade.
Segundo Vattimo, o pensamento fraco é cunhado no contexto mais amplo do relativismo que se posiciona contra o pensamento forte. Este relativismo alimenta o pensamento pós-moderno e está intimamente ligado ao enfraquecimento do ser, ou seja, do Deus Jesus, de sua doutrina, da origem das coisas e da causa primeira. Jesus se torna apenas uma verdade dentre muitas outras, o que destrói as ênfases dominantes da culpa, e valoriza a tolerância ligada a questão do destino.
Vattimo chega a conclusão, ao analisar o renascimento dos cultos religiosos e sua multiplicidade de doutrinas, que cada uma, ao seu critério, aparece com a verdade que interessa, o que levanta a bandeira do aforismo de que é preciso “ acreditar para acreditar”. Na análise de Vattimo pode-se entender que a doutrina universal cristã deixa de ser possível, pois não existe apenas uma doutrina do Cristo, mas doutrinas, o que faz rejeitar a questão da intolerância religiosa. Vattimo percebe que ao valorizar o pensamento fraco, as verdades religiosas corroboram para a ratificação do pós-modernismo, pois o ser universal, o ser da doutrina única e absoluta, está enfraquecido, o que obscurece a teologia tradicional que passa a ser vista como criadora de um Deus menor.
Jesus como o Ser eterno, absoluto, no movimento pós-moderno, é dotado de porosidade, do contraditório, do policêntrico, desprovido de singularidade, abandonado ao seu curso, ao seu destino, enfraquecido como absoluto.
A concepção de Vattimo revela, de forma bastante clara, que a filosofia pós-moderna fala de uma estreita relação do homem com a linguística, a estética e a criatividade. O que leva Vattimo anunciar o fim do pensamente forte, ou seja, o fim da modernidade. Entende que não é mais cabível no mundo contemporâneo um pensamento que exija certezas e fundamentos exclusivistas sobre o homem, sobre Deus, sobre a história e valores. Vattimo entende que a crise pela qual o mundo passa, abala as estruturas de uma verdade universal. Diz que todas as evidências e distinções estão borradas. Entende que não existe mais fundamento para ser conhecido com o qual o homem deva se preocupar. Hoje, vive-se um tempo das histórias, das verdades de cada um.
Segundo as concepção de Vattimo, o que se pode vivenciar hoje e valorizar são as condições do pensamento fraco. O conhecimento não centralizado que entra em uma zona cinzenta dotado de incertos contornos. Pode-se afirmar que o respaldo do pensamento pós-moderno é a ideia de que o homem lê o mundo a partir de uma zona linguística sem fixidez, mas históricas. Esta concepção de pensamento fraco altera a imagem de uma verdade pensada, absoluta. Esta verdade deve ceder, recuar abrindo mão de sua estabilidade e unicidade.
A realidade passa a ser o horizonte linguístico, porém não eterno, mas historicamente qualificado. Dentro deste horizonte linguístico o homem lê e interpreta e se relaciona. Porém, este horizonte é temporal e não eterno, o que leva a desaparecer os discursos e teorias absolutas sobre Deus Jesus, o homem, o sentido da história e o destino da humanidade.
Na premissa do pensamento pós-moderno ou do pensamento fraco é anunciado o fim da doutrina estável, o que valoriza à concepção das múltiplas doutrinas instáveis cheias de novas oportunidades de se pensar o mundo, Jesus, as coisas e o homem. O grito de Nietzsche “Deus está morto” anuncia, segundo Vattimo, o fim do discurso do ser, ou seja, das verdades últimas e definitivas. A verdade não se reveste mais do absoluto, mas passa ser a transmissão do patrimônio linguístico ou históricos, que oferecem a condição de uma nova compreensão do real.
No pensamento pós-moderno, a história deixa a ideia de progresso, de aproximação do fim, de leis aprimoradas, para valorizar as histórias das constantes superações de um processo social, econômico, religioso e cultural. Ou seja, a história passa ser as histórias de superações e não de implantação de leis cada vez mais aprimoradas. Nessa via, Jesus se torna o homem de superação e não mais o fim de todas as coisas com solução definitiva para o homem, mas um Jesus que orienta para superações. Jesus passa a ser um instrumento de utilidade capaz de oferecer condições de vida temporal e não eternas, um Jesus que atende as leis de mercado.
O pensamento pós-moderno abandona a ideia de uma racionalidade central da história. A história é substituída pelo mundo como linguagem que explode em racionalidades (ética, religiosa, sexual, cultural e estética) que falam abertamente sobre a ideia de que só há uma humanidade, aquela capaz de alcançar à custa de todas as peculiaridades, de toda individualidade limitada, efêmera e contingente, a dissolução dos fundamentos, ou seja, do ser.
O indivíduo pós-moderno é aquele que não tem mais necessidade de "garantia fornecida pela ideia de Deus", mas aceita o niilismo como oportunidade que o leva a aprender a viver sem ansiedade. Ele se satisfaz no mundo relativo de "meias verdades", fora de certezas absolutas que entendem como mitos da própria humanidade ainda primitiva e bárbara.
Vive-se o instante de uma humanidade que se desencantou com as verdades eternas que envolvem o social, a religião, a política, a ciência e o progresso. A compreensão da dinâmica pós-moderna leva em conta a comunicação e o consumo como fatores essenciais para entender a civilização contemporânea, o que enfraquece as ideias tradicionais e leva a desmistificação do ser. Estimula o interesse pelo que é alternativo em qualquer nível da vida.
O individual substitui os projetos coletivos e aprecia o culto ao corpo e aos livros de autoajuda. As doutrinas pós-modernas passam a revelar a existência de um Jesus que passa a ser entendido como o Jesus mercado, o Jesus poroso, relativo, o Jesus da superação individual e não aquele autor e consumador de todas as coisas, o alfa e o ômega.


BIBLIOGRAFIA

VATTIMO, Gianni. e Pier Aldo Rovatti (a cura di), Il pensiero debole, Feltrinelli, 2010, EAN 9788807721779.
REALE, Giovanni. História da filosofia, 6: de Nietzsche à Escola de Frankfusrt/ G. Reale, D. Antiseri; tradução de Ivo Storniolo. Paulus, 2006 São Paulo/SP – coleção história da filosofia; 6.
SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução a uma ciência pós-moderna. Graal – Rio de Janeiro/RJ, 1989.


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