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O REALISMO E A PERSPECTIVA DE GASTON BACHELARD

XII Conferência Anual da Associação Internacional para o Realismo Crítico. UFF
Autor: Nascimento F.
DATA: 29/05/2009


INTRODUÇÃO
O tema geral desta pesquisa é a produção do conhecimento na educação. Dentro dessa preocupação maior, a nossa proposta foi, concretamente, examinar a contribuição de Gaston Bachelard (1884-1962) para a investigação, considerando, especialmente, sua importância para o processo de pesquisa em educação. A intenção nasceu do interesse pela discussão de uma nova metodologia de pesquisa que pudesse mostrar alternativa para um procedimento investigativo capaz de ultrapassar os critérios tradicionais de ciência. Critérios que valorizam a concepção de conhecimento que privilegia o realismo-objetivo, o realismo-descritivo e o realismo-histórico, como “fonte da verdade”. Uma ciência orientada por uma realidade dada, que leva o sujeito cognoscente a ser instruído pelo real, prendendo-se à explicação do mundo, à análise e à descrição.

Busca-se uma nova metodologia de pesquisa que mostre alternativa para o procedimento investigativo capaz de ultrapassar esses critérios tradicionais de produção do conhecimento. Critérios que privilegia o realismo-natural como fonte da verdade. Uma ciência orientada por um real que se oferece à atividade cognitiva. Sem desconsiderar as ponderações já consolidadas, ponderaçoes que se voltam para o exame do significado do processo epistemológico como um todo, com Gaston Bachelard surgem novas formas de se fazer ciência, formas que trazem elementos novos que permitem repensar o processo de conhecimento.

A metodologia usada neste trabalho valorizou a pesquisa teórico-conceitual centrada no estudo da literatura produzida na área da Filosofia e da Educação. Especificamente, foram investigados os trabalhos de Gaston Bachelard, destacando as formas elaboradas sobre o significado de uma realidade que se apresenta como instruidora do sujeito.


O REALISMO E A PERSPECTIVA DE GASTON BACHELARD

Em uma concepção primitiva, o realismo-sensível se tornou o primeiro caminho de
aproximação do homem do seu mundo. Uma prática que não só valorizou os olhos, mas todo o seu ser no universo. Um processo que leva o indivíduo a ser um sujeito pensante no Cosmo, na Physis e na Polis. Uma possibilidade que o torna capaz de investigar a realidade que se oferece. Esse modo primitivo, de se “achar” no mundo, aprimoram no homem modos de pensar que criam condições de sobrevivência. Ele se vê em um universo e entra em comunicação com esse, iniciando assim, pelo que se entende, todo processo de conhecimento, uma relação passiva de aprendizagem com as coisas percebidas.

Desde cedo, o mundo com suas aparições estimula o homem a desenvolver e aperfeiçoar mecanismos específicos de sistematização de procedimento, o que redunda em focalizações e apreensões em torno do que lhe atrai. O sujeito, nessa atividade, passa a adquirir procedimentos que vão se constituir, comportamentos básicos oriundos de estímulos mentais.

Trazendo esse debate para a produção do conhecimento no séc. XX, a princípio se
detecta duas visões de mundo que dominam a pesquisa em educação, a visão objetiva e a visão subjetiva. A terceira via que se contrapõem a estas duas, inspirada nos marxistas, surge como desafio à hegemonia do realismo-empírico e a do realismo-idealista (SANTOS E GAMBOA,2002).

Desse modo, na prática científica, três vias s urgem na tentativa de dar conta de um realque se apresenta e instrui a razão: a do realismo-positivista, que afirma ser a objetividade a possibilidade da observação distantes do pesquisador. Um realismo que prioriza a neutralidade por separar fato e valor. Método que busca a explicação das causas da mudança nos fatos sociais por meio da medida e da análise cumulativa. Um procedimento que se prende à predição, o teste da hipótese e a generalização. Prática que tem como critério fundamental a fidedignidade ao objeto dado. Ao levar em consideração a proposta do realismo-positivo, pode-se chamar conhecimento positivo toda doutrina que se atém à importância do que está presente, do certo, do efetivo, verdadeiro ou do que se afirma. Na realidade, o termo, realismo-positivo ou positivismo, teve sua sistematização em Augusto Comte (1798 - 1857), ao propor um método para uma filosofia positiva. Os filósofos que seguiram Comte foram também chamados de filósofos positivos ou positivistas, como Stuart Mill, Spencer, Mach, Avenarius, Vaihinger e outros. A filosofia realista fundada nos pressupostos positivista enaltece a unidade metodológica, adota o método positivo como o único caminho possível de ser aplicado tanto na investigação dos fenômenos da natureza quanto na pesquisa sobre as manifestações da sociedade. Ou seja, o realismo-positivista se firma como método de investigação que se presta tanto para o conhecimento dos dados naturais quanto dos sociais. Para ele, a natureza e a
sociedade se tornam conhecidas por leis invariáveis e universais. Entende que a verdade se apresenta por demonstração e que se torna verificável quando confrontada com o dado, limitando assim, o conhecimento às informações sensoriais (MEKSENAS, 2002).

O realismo-positivista está preocupado com o objeto na sua positividade, para isso, reivindica a neutralidade na relação sujeito-objeto. Com isso, elimina qualquer busca científica que se preocupe com a necessidade do homem. Torna-se portador da bandeira da verdade, por entender que o distanciamento entre sujeito e o objeto garante a neutralidade ao resultado da pesquisa (MEKSENAS, 2002). O método realista-positivista pensa, assim, aproximar o homem ao seu habitar, juntando o seu trabalho ao seu modo de sobrevivência no espaço e no tempo (TURA, 2003). Ele prioriza a observação e a sistematização, ou seja, a conduta e o procedimento focalizado em torno do objeto apreendido na natureza. Estabelece, dessa forma, a relação de conhecimento na concretude (TURA, 2003).

A perspectiva epistemológica do realismo-positivista será confrontada e
modificada pela segunda teoria, a do realismo-fenomenológico. Ela desloca o ato da
explicação, para o da intenção e descrição, característica que demonstra a presença deum novo modo de compreensão da realidade.

O realismo-fenomenológico se apresenta como uma perspectiva interpretativa,
ele prioriza uma consciência aumentada. Para ele, o que importa é o homem como
existência e não como fato. A fenomenologia valoriza o sujeito como um ser
intimamente pessoal. Nesta perspectiva prevalece a idéia ou a noção de
intencionalidade. Uma consciência formada na intencionalidade sobre o que é objetivo,
acontecendo o aparecimento de uma consciência do objeto. Nesta nova concepção, o
sujeito exerce a intencionalidade que busca descobrir e somar as qualidades ocultas,
descaracterizando a simplificação da observação como entendia o realismo-positivista.
O seu principio está em afirmar que não existe objeto sem sujeito (TRIVIÑOS, 1987).
A fenomenologia passa a ser uma atividade que oferece à ciência maior valor em
sua investigação. Ela supera a neutralidade entre objeto e sujeito. A Fenomenologia
entende que todo o universo da ciência depende do mundo vivido, ele deve ter um
sentido e se precisa buscar o alcance deste (TRIVIÑOS, 1987).

Com essa nova proposta, novos pressupostos são trazidos à prática da pesquisa
na ciência, dentre eles, o ato de descrição e significação. Com isso, a ciência deixa a prática de valorizar apenas a quantidade, para inserir, no processo da pesquisa, a noção de qualidade. Na proposta fenomenológica a pesquisa deve estar voltada à verificação da qualidade e da quantidade.

Para o realismo-fenomenológico o objeto de estudo não é o dado propriamente
na objetividade, torna-se um dado na consciência do momento vivido, produto de uma
correlação entre sujeito e as coisas. Neste, realismo-fenomenológico, o objeto de estudo não se encontra apenas lá fora, mas se forma na consciência daquele que intenciona pela atentatividade. Tal procedimento é considerado como uma abertura de existência que dispensa pressupostos para sua explicação. Torna-se um momento novo na ciência que se confronta com a predominância do realismo-positivista que se baseia apenas numa análise observacional. Na perspectiva do realismo-fenomenológico o olhar não é tão privilegiado como no realismo-positivista, mas privilegia a subjetividade e a intersubjetividade como condições de descrever a experiência do dado. Os modos de aparecer da coisa ou do fato.

A outra perspectiva que surge na via da ciência é a do realismo-histórico. Este
realismo passa a ser o reflexo da ação do homem na transformação do mundo. Esta via
de compreensão do real entende que a consciência social se efetiva com as concepções
política, jurídica, filosófica, estética, religiosa e outras, e não pelo fato de ter-se primeiro a idéia do que seja o ser social, como deseja o idealismo.

Ao se conduzir no mundo, segundo o realismo-histórico, o homem transforma e
se deixa transformar por meio das relações sociais de produção, bem como, mediante a
correspondência política. Ele cria diferentes modos de apropriação da natureza. Nesta
via, o sujeito desenvolve diferentes modos de propriedade o que possibilita organizar o trabalho, surgindo desse exercício as diversas instituições sociais.
Nos desdobramentos do realismo-histórico, entende-se que a atividade de
produção do conhecimento tem correspondência com a formação das classes sociais de
cada época, que demonstram diferentes modos de pensamento, cada qual vivido no seu
tempo histórico. Nessa perspectiva, o realismo-histórico tenta superar a via do realismopositivista e a do realismo-fenomenológico. A questão nesta via, não é observar o mundo nem interpretá-lo e sim, transformá-lo. Deste modo, a história se torna o objeto dado pela ação do homem de modo aleatório, como preparação e desenvolvimento do conhecimento. Com esta verificação, compreende-se que o realismo-histórico privilegia de certo modo, o que se dá de forma positiva. Logo, ainda está no campo da afirmação e confirmação, como as doutrinas anteriores. Com a história, o método que privilegia o realismo-histórico, entende conhecer o mundo e sua dinâmica.
Com isso, o realismo-histórico privilegia não a atividade neutra, nem a
interpretativa, mas a ação política, que mostra a transformação do mundo, presente na
história. A própria ciência e a tecnologia se tornam produtos da história enquanto
houver relações de indivíduos entre si e com a natureza.

Nessa perspectiva, o realismo-histórico passa a entender que enquanto houver
indivíduos que ajam socialmente, com ou contra seu semelhante, é possível se conhecer, conceituar e pesquisar o mundo (MEKSENAS, 2002). O objeto do realismo-histórico está na relação direta com a história da ação do homem no mundo, logo o material de estudo é o objeto histórico. O Marxismo sai da observação (base positivista) e da interpretação (base fenomenológica) e se situa na objetividade histórica, um campo que se alimenta pelo conflito material.

O método do realismo-histórico busca, na história, os dados sobrepostos em cada conceito socializado, o que leva a indagar: O que é um ser social? Tal questionamento irá se situar nas relações materiais, sociais e política. Existência que se revela a partir das ações do homem no mundo. A outra questão que vem fortalecer a concepção histórica são os meios de produção, ou seja, o emprego das forças de trabalho para a produção de bens materiais como máquinas, ferramentas, energia, matérias primas, e as forças produtivas: os homens, a experiência de produção e os hábitos de trabalho. Por outro lado, ainda que contraponha aos métodos anteriores, o realismo-histórico mantém a postura positiva que é a condição de análise da realidade dada pela história. Uma análise que se efetiva pela coerência lógica e racional, em relação à natureza, à sociedade e ao pensamento (TRIVIÑOS, 1987).

O realismo-histórico entende que se deve pesquisar e conceituar o mundo
quando se pode entender que o indivíduo age sempre socialmente. Para isso, o pesquisador deve considerar as condições das relações sociais de classe. Relações constituídas pela ação, que segundo o realismo-histórico, torna-se o meio pelo qual se pode conhecer a natureza e o humano. Um modo que se apresenta movido pela contradição, ou seja, “afirmação – negação – nova afirmação” (MEKSENAS, 2002).
Contrapondo às três correntes realistas, a perspectiva científica do realismo de Gaston Bachelard (1884 e 1962) vai demonstrar que a produção do conhecimento, hoje, não observa, não interpreta, não se prende a especulação da ação do homem na história que constrói aleatoriamente. Mas reivindica a polêmica com todo tipo de conhecimento, seja dado pela sensibilidade (ingenuidade) ou pela teoria. O que leva ao quarto momento da ciência, que prioriza o realismo da pura abstração. Bachelard entende que o realismo-abstrato leva a atividade científica a se afastar cada vez mais do empírico, condição que considera como o verdadeiro papel da ciência. Partindo dessa compreensão, Bachelard entende que a atividade científica, no atual momento, situa-se no campo da polêmica com o conhecimento anterior. Com isso, a polêmica com o realismo-empírico, com o realismo-interpretativo e com o realismo-histórico se torna inevitável, pelo fato dos mesmos priorizarem o objeto que se oferece à atividade do sujeito que conhece.

Ao levar em consideração essas questões até aqui apresentados é que se ressalta a contribuição da proposta do realismo-abstrato. Uma via que se entende acrescentar ao processo da produção científica novas categorias de produção do conhecimento. O que se entende como possibilidade de avanço em relação às três concepções epistemológicas apresentadas até aqui.Uma das mudanças que se percebe em relação aos métodos anteriores está na questão de que a ciência, no realismo-abstrato, primeiro pensa para depois aplicar.

A experiência não é realizada pelos sentidos ou pela análise. No estado abstrato a sensibilidade e a subjetividade são substituídas por instrumentos e pela polêmica. O sujeito passa a sentir e a entender com os instrumentos e a polemizar com o conhecimento dado. (BACHELARD, 1996). A via epistemológica do realismo-abstrato compreende que não é pela observação, pela intencionalidade ou pela história da ação
do homem que se tem conhecimento da realidade, mas pelas racionalidades em suas abstrações cada vez mais audaciosas, que depura o dado e produz a realidade, uma realidade artificial, desprendendo o espírito da realidade natural, seja ela física ou social. (BULCÃO E BARBOSA, 2004).

Surge assim, a partir desse novo método de produção do conhecimento, a opção
pelas experiências sugeridas, em que a ordem é uma ordem construída. Uma ordem que
passa a ser a verdade, enquanto a desordem o erro. Nesta via a razão se estabelece em
um novo caminho, o caminho da preocupação com questões racionais. Deixa de lado a
preocupação com os postulados empíricos, intencionais e da ação. Para se debruçar
sobre a abstração pura. Um ato que ultrapassa as imagens da realidade natural ou as
formas geométricas e, consequentemente, chega às formas abstratas. Prática que
Bachelard compreende ser o caminho normal da via psicológica do pensamento
científico (BACHELARD, 1996).Bachelard entende que o caminho da produção do conhecimento se efetiva na polêmica com o conhecimento anterior. Para ele, o realismo-empírico valoriza apenas os procedimentos experimentais que se fundam nos decretos ministeriais da medida, do peso, da desconfiança do abstrato e da regra. Um realismo cuja realidade se oferece e deseja instruir o sujeito. Este procedimento, segundo Bachelard, valoriza o ver para compreender (BACHELARD, 2008). Ele entende que o pensamento científico é a reforma de uma ilusão, uma atividade que valoriza a fenomenologia do trabalho. Nessa via, o realismo-empírico perde a primazia diante da atividade científica que valoriza a realidade construída (BACHELARD, 2008).

A direção em que caminha o realismo-abstrato, percebida por Bachelard, torna-se
diferente da via acumulativa do realismo-positivista. Isto, pelo fato deste realismo
entender que o pensamento científico se dá de forma hierárquica na história.
A via do realismo-abstrato valoriza sempre o recomeço do conhecimento. Atividade que leva o pesquisador de volta ao pensado, dinâmica que se prende à
especulação do conhecido e não da ordem. Esse caminho oferece ao pesquisador
possibilidades de avançar e ultrapassar o comum, a primeira imagem, a teoria
impregnada de hábitos intelectuais. Para a epistemologia bachelardiana, o cientista deve psicanalisar o interesse afetivo, desmanchar a mística do utilitarismo, por mais sedutora e mais valor que tenha; deve desprender o indivíduo do real natural, da intencionalidade e da análise para leválo ao real artificial, uma posição que emancipa o espírito da sedução do dado para a pura abstração.

Surge assim, a partir dessa nova modalidade de produção do conhecimento, à concepção de experiências sugeridas ou construídas pela razão, em que a ordem é uma ordem construída pelo próprio sujeito. Uma ordem que passa a ser a verdade (BACHELARD, 1996).

A direção em que caminha o realismo-abstrato torna-se diferente da via evolutiva do realismo-positivista. A via do realismo-positivista se dá na dimensão histórica hierárquica, enquanto o realismo-abstrato se forma pela via psicológica (a via psicológica que Bachelard entende passar pelos estados concreto, abstrato-concreto e o abstrato).

Na atividade do realismo-artificial a ciência é levada de volta ao pensado, uma dinâmica que se efetiva com a especulação do conhecido e não da ordem ou da análise, ou ainda da intencionalidade. O caminho da pura abstração oferece ao pesquisador possibilidades de avançar e ultrapassar o comum, a primeira imagem, a teoria impregnada de hábitos intelectuais. Para a epistemologia bachelardiana o cientista deve psicanalisar o interesse afetivo, desmanchar a mística do utilitarismo, por mais sedutora e mais valor que tenha. Ele deve desprender o indivíduo do real natural e levá-lo ao real artificial, uma posição que o emancipa para a pura
abstração. Com isso, pode-se perceber que a experiência científica sempre será contrária à experiência imediata. Experiência que deseja levar a crer que o fato não pode ser verificado, e sim descrito, explicado, o que elimina a possibilidade do erro, evitando com isso, a polêmica, característica do novo momento do espírito científico. Bachelard, voltando-se para essa questão, nos adverte: “(...) a experiência imediata e usual sempre guarda uma espécie de caráter tautológico, desenvolve-se no reino das palavras e das definições; falta-lhe precisamente esta
perspectiva de erros retificados que caracteriza, a nosso ver, o pensamento científico.” (1996). Para Bachelard, o realismo-abstrato se forma contra os instantes anteriores que se pode considerar como o não realismo-concreto, o não realismo-fenomenológico e o não realismo-histórico. Essa via se coloca contra o conhecimento anterior, lugar em que o espírito divide e classifica determinando novas relações (SANTOS, 2004).

Na concepção do realismo-abstrato a natureza não pode ser compreendida por
observação, descrição e análises e, sim, pela competência de um sujeito científico que se coloca contra essa natureza. Neste caso, o natural se torna apenas um pretexto, uma condição para o trabalho do homem de ciência. Esta atividade epistemológica entende que o conhecimento se dá no instante em que ultrapassa o que é oferecido, seja natural ou teórico. Esta superação se efetiva no instante em que a ciência se coloca, no exercício de suas atividades, contra o aparente, trabalho que se estabelece com a dúvida. Bachelard aponta para as transformações que as ciências físicas sofreram com as novas formas de investigações. O que mostra que a razão tem uma história, uma história descontínua. Bachelard deixa de se preocupar com a história dos fatos para se aplicar à história da razão. Nessa discussão, contra a prática epistêmica que defende a continuidade da história da ciência, é que surge a concepção de ruptura considerada fundamental em sua epistemologia (BACHELARD, 1996).

A ruptura foi entendida por Bachelard como possibilidade de proporcionar à ciência o progresso. Postura que extingue os princípios absolutos da razão. Essa compreensão leva a entender que a razão é instável e aberta. O que deu origem a noção de descontinuidade entre o científico e o conhecimento comum. Isto, por entender que a ciência não procede desse comum, mas que tem a função de negar a experiência primeira. Torna-se a idéia de ruptura o eixo principal do realismo-abstrato ou artificial (BACHELARD. 1996).

No realismo abstrato, fundado na dimensão do pensamento, diferente do observável, do intencionado e da análise, Bachelard percebe que existe um estreitamento entre teoria e experiência, mas a teoria sempre surge primeiro. O objeto positivo para o novo espírito científico é apenas um pretexto para a ciência. O pensar não é o pensar observável, analisável ou intencional, mas o pensar teórico, ou seja, o pensar polêmico que se dá no ato de negar o anterior. De modo que uma teoria irá contrapor sempre a outra já existente. Com essa atividade a ciência passa sempre a ser um eterno recomeço.

Diante das circunstâncias em que se detecta a fragilidade do realismo-positivo,
Bachelard entende que a ciência deve priorizar uma nova perspectiva epistemológica que se estabeleça pela polêmica contra o anterior, aquela atividade que leva o sujeito que pensa, a lutar sempre contra as imagens, contra as analogias e contra as metáforas, e nunca se deixe levar pela contemplação e explicação dos fenômenos. O novo espírito científico institui a pedagogia que privilegia sempre o contra (BACHELARD, 1996).

Com o realismo-abstrato, o conhecimento não pode privilegiar o dado, torna-se
necessário reavivar a crítica, buscar as condições que lhe deram origem. Torna-se necessário valorizar o estado nascente, que emerge de uma resposta saída do problema criado que dá origem à investigação. A razão discursiva difere da razão instruída. A razão discursiva tem uma característica especial, consegue revirar os problemas, variá-los uns contra os outros. São razões múltiplas que entram nesse jogo cognoscente. Essa prática de pesquisa entende que é preciso superar as convicções primeiras, as convicções humanas. Convicções iniciais fundadas em certezas imediatas, do certo e da crença no verdadeiro (BACHELARD, 1996).
Na perspectiva bachelardiana o que existe na experiência com o realismo-positivo são as convicções, as paixões, as crenças e os desejos inconscientes que precisam ser psicanalisados. A sua epistemologia entende que ao se fazer a investigação de um objeto apanhado na primeira experiência, não se pode evitar que as informações sejam distorcidas e imprecisas, o que acarreta momentos confusos da realidade. Sua epistemológica compreende ser necessária a luta contra essas forças. Bachelard entende que, por traz de cada representação, existe certa intensidade psicológica que efetiva com maior ou menor força o domínio de uma verdade. Fica evidente que o espírito científico deve opor-se contra essa condição que o realismo-positivo valoriza como modo de chegar ao conhecimento da verdade (BACHELARD, 1996).
A nova metodologia científica valorizada por Bachelard, reconhece que ultrapassando o sensível, existem vínculos essenciais mais profundos. O que requer do pesquisador, como necessidade, um trabalho aprofundado, um trabalho que transponha o espaço dado. Uma atividade que não se limite à representação, mas que ultrapasse a instância da forma(BACHELARD, 1996). Com o realismo-abstrato ou ainda o realismo do contra, a ciência que valoriza o prever, o explicar, o intencionar e a análise passa a prioriza mais as metáforas do que a realidade positiva. Ela cria, com essa mudança de perspectiva, um espaço de configurações, uma posição que desprestigia o natural. (BACHELARD, 1996) O espírito cético, ou seja, de negação, necessita de ser aguçado contra as informações das aparências externas que desejam instruir. Segundo Bachelard, o espírito científico deve opor-se sempre contra essa ilusão. Para o novo momento do espírito científico o princípio racional deve se fundar na ordem do recomeço e não na ordem do natural.

Desse modo, Bachelard, com sua epistemologia, inicia uma nova pedagogia de caráter não-positivo. Contraria uma tradição fortemente fundada no realismo-positivo predominante na França em sua época. Uma tradição que procurava negar os juízos metafísicos, e que se entendia como o único caminho para a aquisição do conhecimento verdadeiro, um conhecimento baseado em proposições verificáveis e objetivas. Com a revolução científica ficou atestado a fragilidade da ciência natural que se vê
abalada com a nova via epistemológica. Com isso, novas categorias passam a integrar à atividade científica. Categorias que vão impulsionar a dinamicidade da racionalização das ciências atuais. Entre os novos pressupostos epistemológicos pode-se citar, além das categorias de ruptura, descontinuidade, obstáculo epistemológico e retificação, a de ultrapassagem, do recomeço, da ingenuidade, do corte epistemológico e da imaginação. Com isso, surge a comprovação de que o caráter racional da ciência se instala na ordem do objeto construído. Essa comprovação descaracteriza o objeto evidente na natureza como objeto de estudo. No novo
processo da produção do conhecimento o sujeito torna-se participativo, ativo, deslocado da passividade, do instruído, para o de se instruir. Um sujeito que se revela como cidade científica; que consegue unir racionalidade e técnica a fim de realizar seus próprios fenômenos. A epistemologia bachelardiana mostra que não há nem sujeito nem um objeto previamente constituído, mas ambos se realizam no processo da participação cognoscente. Este procedimento resulta do diálogo entre razão e experiência. Bachelard entende que o sujeito adquire a sua função primordial no ato de sua atividade, que é a de se enganar. Procedimento que o constitui como capaz de retificar suas concepções durante o processo do saber. O sujeito nessa atividade é aquele que não impõe limite, mas o ultrapassa. Atitude que não é normal na tradição científica, pois essa se apoiava em uma estrutura sólida impenetrável, com a qual
entende não poder a tudo conhecer, pelas resistências materiais (BULCÃO, 1999).
Com isso, Bachelard esforça-se por demonstrar que os conhecimentos novos contradizem os anteriores e que o espírito científico se desenvolve de erros retificados. Tal postura leva a compreensão de que não existem verdades primeiras, mas que toda verdade nasce de erros corrigidos, uma via que prova a mobilidade do pensamento científico.

Para Bachelard não é no real que se inicia o conhecimento, mas no sujeito que conhece: conhecer pela razão dando existência à realidade, nessa perspectiva, a ciência vem antes do real. Uma origem epistemológica que não está na observação imediata dos fenômenos, mas na construção do próprio fenômeno. A ciência anterior buscava um racionalismo aplicado a partir da experiência, entendendo que a validade desta estava na experimentação. Já na nova ciência, como entende Bachelard, o sentido de racionalismo aplicado tem outra perspectiva, pois os conceitos antes de serem experimentados devem ter as condições de sua aplicação. Com isso, a idéia torna-se uma configuração que tem em si, a ordem superior de sua aplicação. Isto quer
dizer que cada noção deve ser provada teoricamente e tecnicamente. São as elaborações teóricas que explicam as determinações técnicas a fim de serem aplicadas. As noções devem ser provadas teoricamente e no que se considera técnico. As resoluções teóricas explicam as determinações técnicas e as técnicas comprovam as questões teóricas. Essas duas condições validam a noção como científica por não serem imediatamente obtidas numa primeira observação (BULCÃO, 1999).

Conclusão
Assim, tendo como horizonte a interrogação sobre o significado do processo de
produção do conhecimento em educação – realismo e conhecimento. Foram avaliadas neste
trabalho, as contribuições que os métodos de pesquisa científica oferecem para a compreensão do conhecimento do real. Foi possível, nessa discussão, trazer argumentos que sustentam a idéia de que a atividade investigativa em educação pode assumir contornos diferentes das orientações que valorizam o natural educacional e educativo; a produção do conhecimento científico em educação pode superar as diretrizes metodológicas que limitam a pesquisa em educação à explicação, à descrição e à análise da prática pedagógica.
Bachelard entende que a busca do conhecimento está para além de uma realidade que se
efetive eternamente fundada na explicação, na descrição e na análise. Ele reivindica e prioriza a prática que foge da perspectiva que se satisfaz com o real dado. Prioriza a existência de um sujeito capaz de conhecer e definir critérios metodológicos que apontem para outra condição de conhecimento do real. Com base nesse pensamento, a pesquisa científica, pode se fundar em um discurso que se encontra para além de uma realidade factual, contínua, explicativa e descritiva.
Essa deve ser é a proposta para o conhecimento da ação educativa.

BIBLIOGRAFIA

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____ Estudo. Tradução de Estrela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
 
BULCÃO, Marly. O Racionalismo da Ciência Contemporânea. Uma análise da epistemologia de Gaston Bachelard. Londrina: UEL, 1999.
 
MEKSENAS, Paulo. Pesquisa social e ação pedagógica, conceitos, métodos e práticas. São Paulo, Loyola, 2002.
 
SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. São Paulo Cortez, 2004.
 
SANTOS FILHO, José Camilo e GAMBOA, Silvio Sanchez (org.). Pesquisa educacional quantidade-qualidade. São Paulo: Cortez, 2002
 
TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva, Introdução à pesquisa em ciências sociais. A pesquisa qualitativa em educação. São Paulo. Atlas: 1987.
 
TURA, Maria de Lurdes Rangel e outros. Itinerário da pesquisa. Perspectiva qualitativa em sociologia da educação. Nadir Zago e outros (orgs.). Rio de Janeiro, DP & A:2003.